Paulo César Régis de Souza (*)
Foto © Fornecida por divulgação
Assistimos a cada dia, a cada semana, a cada mês,
há mais de dois anos, capítulos de uma novela que não termina, como tantas
outras, sobre as mudanças que salvarão o Brasil da miséria, da fome, do desemprego,
da violência, do sucateamento da saúde, da precariedade da educação básica e
superior, das polícias, dos presídios.
Lamentavelmente as mudanças parecem se resumir em
uma só: “Reformar a Previdência Social”.
A declaração é atribuída a entidade fantasma: o
mercado, seja os que tem muito dinheiro e aplicam em ações e títulos públicos e
privados.
Ora, meus senhores, já vimos esse filme várias
vezes, com Sarney, Collor, FHC, Lula, Dilma, Temer e agora Bolsonaro, querendo
usar a reforma “Frankenstein” de Michel Temer.
FHC, Lula e Dilma fizeram reformas em nome de
reduzir privilégios e déficit e nada disso aconteceu. Só ampliaram o
favorecimento de um mercado que não quer saber de programas sociais, só de
lucros em aplicações financeiras.
Não há no mundo civilizado uma linha sobre o
Brasil, a economia brasileira.
Dizer que as bolsas de Nova Iorque, Paris,
Frankfurt, Xangai, Hong Kong, Tóquio, exigem a reforma da Previdência é uma
farsa do engodo que dimensiona a tragédia nacional.
Ninguém fala em reduzir a dívida pública que suga a
poupança nacional, beneficiando justamente total mercado de um neoliberalismo
perverso e não tem paralelo em economias capitalistas modernas.
Ninguém fala que o problema principal da
Previdência Pública (RGPS) está no seu financiamento, não fiscalização e
cobrança dos que se beneficiam como o agronegócio (que deixa de pagar R$ 100
bilhões/ano), bem como os as renúncias (principalmente de filantrópicas,
agronegócio, Supersimples e Mei), as desonerações, os Refis e os subsídios, com
contribuição de 50% e benefícios de 100%.
É certo que a Previdência da União, Estados e
Municípios (os chamados regimes próprios) está no fundo do poço, mas os
militares nunca pagaram. Estados e Municípios recolhem dos servidores e não
pagam o INSS, ou transferem por seus fundos.
Preocupo-me, como previdenciário há 40 anos, com o
RGPS, com o INSS.
Todos que fizeram a reforma da reforma da
Previdência não economizaram um tostão. Pelo contrário, escancararam os ralos
com os Refis e mais Refis para honrar seus compromissos com os financiadores de
seus partidos e políticos os caloteiros públicos (mais de R$ 100 bilhões para
estados e municípios, uns R$ 500 bilhões para indústria, comércio,
transformação e serviços, e R$ 20 bilhões para o agronegócio).
O novo ministro fala que a inadimplência é de 40%.
Por que não cobra deles, primeiro? Por que não cobra a dívida ativa que cresce
exponencialmente e ainda entrega a PGFN, que deveria cobrar a dívida ativa, a
parasitas e incompetentes?
O novo ministro fala em 40 milhões de informais.
Porque não buscar mecanismos para que paguem corretamente, se sonham em se
aposentar? Que paguem 50% e tenham um benefício de 50%. É correto. Não
como fizeram Lula e Dilma que em nome da inclusão previdenciária criaram seis
novos funrurais que, se não forem revistos com urgência, vão implodir o RGPS
mais adiante.
O ministro fala em ralos. Por que que não acabar
com renuncias, desonerações, Refis. Benefícios criados sem o devido
custeio, para agradar a base política na base do toma lá dá cá?
O modelo previdenciário brasileiro é ímpar no mundo
contemporâneo. O ministro não fala nos R$ 1,5 trilhão dos ativos da previdência
complementar aberta dos planos e fechada dos fundos. Nenhum país como nosso tem
ativos que financiam 100% a dívida pública a paga 31 milhões de aposentados e
pensionistas; 4,5 milhões de benefícios assistenciais e financia quase 70% dos
municípios e ainda é a maior redistribuidora de renda.
O novo ministro fala em copiar o modelo chileno
totalmente falido e com os aposentados na miséria. Modelo criado pelo irmão do
atual presidente na ditadura chilena e que ele está revendo. Lembremo-nos que o
Chile não tem 20% da população do Brasil (são 18.5 milhões para 205 milhões!).
O novo ministro fala em instituir o regime de
capitalização, mas na realidade é instituir a previdência sem contribuição
patronal, (sonho de todo empresário é deixar que o trabalho se vire) o que
inexiste no mundo. Se existe diga onde.
Fala em mudar o modelo alemão, modelo perverso, um
sistema orientado somente pela remuneração, privilegiando somente os de alta
remuneração, sem o regime de solidariedade. Os alemães pobres, com remuneração
baixa dependem na velhice de ajuda social do governo.
O ministro erra redondamente quando acha que o
regime de repartição simples está superado. Nem a Escola de Chicago acha!
O grande engodo foi nos enganar que fariam a
reforma necessária, com quem entende de Previdência, os previdenciários, mas me
parece que já vem um prato feito e requentado para atender os interesses de
banqueiros e de seguradoras e de investidores ávidos e sequiosos
pelos rendimentos de ações.
Nosso novo presidente pregou durante sua campanha
esperança, mudanças, doa a quem doer, acabar com as desigualdades, acabar com a
violência, sem roubar e sem mentiras.
Prefiro admitir que quem mente também rouba,
corrompe, pois rouba o direito de se saber a verdade do que está por trás da
reforma da Previdência, RGPS e Regimes Próprios.
(*) Paulo César Régis de Souza é vice-presidente
Executivo da Associação Nacional dos Servidores Públicos, da Previdência e da
Seguridade Social - Anasps.






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